Contexto

Como matar um criminoso

Imagine a cena:

Você está sozinho na rua. É noite e o entorno parece deserto. É preciso andar alguns quarteirões até chegar em casa. Você faria essa caminhada tranquilamente?…

Agora, um teste rápido:

Quando alguém próximo (filho, mãe, esposa, namorado…) diz que vai dar uma saída à noite, sem companhia, é uma situação que soa sem preocupações para você?

É bem possível que sua resposta nos dois casos tenha sido ‘não’.

Infelizmente, no Brasil, é comum que as pessoas não se sintam à vontade para ir a qualquer lugar, a qualquer hora, sozinhas ou mesmo acompanhadas de amigos e parentes.

Afinal, a insegurança é um fato. Como apontam as seguintes estatísticas relacionadas à criminalidade:

Mais pessoas morrem assassinadas em nosso país do que na Síria. Repetindo: o Brasil sofre com um número de vítimas de homicídio superior ao conflito armado mais violento da atualidade!

. Falando em estupros, foram notificados 45.560, somente em 2015.

. Ilustrando a questão dos roubos, em dois anos recentes, mais de 1 milhão de carros entraram nessa conta.

O que fazer diante desse quadro?…

Certamente que ele não está sendo revertido com o investimento concentrado nas operações policiais pelas ruas, como a TV mostra todos os dias.

Hoje, não é possível falar efetivamente em resolver o problema sem abordar a revisão do sistema prisional.

E por quê?

1) A estratégia não está dando certo

Cada vez mais pessoas são presas, mas, em vez de prevenir as ocorrências, a criminalidade parece fora de controle. Dos quase 200 países reconhecidos pelas Nações Unidas, atualmente, o Brasil é a quarta maior população carcerária, com mais de meio milhão de detentos.

E, embora o encarceramento tenha disparado (o volume de pessoas privadas de liberdade multiplicou cerca de cinco vezes desde o início dos anos 90, enquanto a população em geral cresceu em torno dos 30%), a violência segue recorde.

2) As prisões se tornaram “escolas do crime”

Embora ainda hoje não existam dados completos sobre a reincidência no país, é de amplo conhecimento que os ex-condenados com frequência voltam a cumprir pena.

Essa ligação persistente com o crime, em parte, encontra explicação nos numerosos relatos que demonstram como quem é preso acaba coagido a se aliar a alguma facção em busca de proteção, ao preço de prestar “serviços” após a saída da cadeia.

3) Frequentemente os presos deixam a prisão pior do que entraram

Não é à toa. Nossos presídios são periodicamente denunciados pelas condições de abuso, incluindo superlotação, tortura, ausência de higiene, etc.

E que tipo de sujeito você acha que voltará às ruas após tantas violações? Alguém apto a constituir um mundo mais harmônico e pacífico?

Acho que você já sabe a resposta…

Como não há pena de morte nem prisão perpétua no Brasil (o que, convenhamos, é um alívio diante de um Estado que comete tantas falhas), o objetivo óbvio deveria ser recuperar os presos. Mas não é o que acontece.

“AS COISAS SÓ TÊM SIGNIFICADO QUANDO NÓS AS CONHECEMOS”

Essa frase, de autoria de Mário Ottoboni (saiba mais), casa bem com a oportunidade de visitar uma APAC. Para nós do ATOEFEITO (atoefeito.vc), poucas experiências são tão intensas como essa.

Lá, nada é como o que vemos do sistema prisional nos jornais. Não há pessoas amontoadas ou dormindo em pé, os presos não ficam ociosos, e, no lugar da sujeira, encontramos um ambiente organizado e em harmonia. Lá, é possível conversar com os internos olhando diretamente nos olhos, e sem a presença ostensiva de vigias armados.

É claro que as APACs não são o paraíso nem ali vivem anjos. Continua sendo um presídio, e os presos permanecem cumprindo suas sentenças. Mas, estar adaptado a uma APAC é praticamente um atestado de compromisso com a mudança.

Muitos dizem que “pagar pena” ali é mais difícil do que no chamado sistema prisional comum. Na APAC, o preso encara uma rotina rígida cheia de regras do acordar até a hora de dormir, com muito trabalho, estudos e outras atividades para autotransformação. Por isso, os internos da instituição são chamados de ‘recuperandos’.

Parece sonho, mas na verdade é fruto de muito esforço.

É o que te convidamos a conhecer neste site.

ATOEFEITO | dezembro de 2016